Sentir-se em casa, longe de casa

Inicialmente, desenvolvi esta reflexão em Inglês, seguramente porque este idioma se tornou dominante em toda a minha actividade profissional. Assumi depois o dever a de traduzir para Português, procurando trazer para a minha língua materna uma pequena parte de uma mudança que observo na minha forma de ser e de pensar, e que gostaria de partilhar de forma mais próxima com aqueles que também partilham comigo essa mesma língua materna.

Logo no titulo que escolhi em Inglês esta missão complicou-se. É interessante como na língua Portuguesa, o termo “casa” é vulgarmente utilizado, mesmo quando nos referimos ao nosso “lar”. No entanto, em Inglês, a tradução mais directa de “lar” será “home”, enquanto que a palavra “casa” será melhor traduzida como “house”. Em Português, a palavra “lar” quase parece deslocada no contexto em causa. No entanto, o termo “home” flui com toda a naturalidade em Inglês. Na dúvida de como gerir este dilema, optei por recorrer aos termos “lar” e “casa” conforme me pareceu mais conveniente. Assim, o que começou como uma ideia de tradução, tornou-se progressivamente numa adaptação. Se tiver mais interesse na versão Inglesa ou se chegar ao fim desta ainda com algum interesse, convido-o a visitar a versão Inglesa aqui: https://safetyrisk.net/feeling-at-home-away-from-home/

Um lar, é aquele porto seguro ao qual podemos sempre regressar no final do dia. Podemos enfrentar o mundo porque por muito mal que o dia possa correr, no fim, regressamos ao nosso lar. Mesmo alguém que vive sozinho, reconhece um lugar onde se “sente em casa”. São todas as pequenas e grandes coisas que nos dão conforto e uma sensação de constância, quando tudo à nossa volta muda incessantemente. Cada um de nós poderá descrever o seu lar de forma muito diferente, mas no fundo trata-se de algo podemos definir como semiótica. É o significado que damos ao que nos rodeia, e da forma como esses diferentes significados evoluem com a familiaridade que esses lugares adquirem para nós.

Voltar para casa no final de cada dia oferece-nos segurança e conforto, mas também pode remeter ao esquecimento todas essas pequenas e grandes coisas que fazem de uma casa, um lar. E quando a monotonia se torna em apatia, mesmo as pessoas que estão ao nosso lado e que connosco constroem um lar, passam muitas vezes também a fazer parte daquilo que tomamos como certo e garantido. Mas quando passamos mais tempo do que o habitual longe de casa, surge uma oportunidade de reorientar os nossos sentidos para as pessoas e as coisas que fazem o nosso lar. Foi essa oportunidade que tive quando iniciei uma viajem à Austrália no passado dia 5 de Maio, apenas para regressar no final do mês.

Há medida que o tempo passa, as saudades de casa fazem-nos projectar memórias do que nos é familiar e próximo, em todos os lugares que agora pela primeira vez visitamos. O nosso corpo assume o comando, procurando sinais de familiaridade em todos os novos ambientes. Estamos constantemente divididos entre a aventura de uma nova experiência, e a procura de chão firme e familiar para seguir caminho. O auge desta dialéctica (a tensão entre extremos) surgiu quando Rob Long me levou a mim e ao Nippin, a visitar uma plantação de cortiça nos arredores de Canberra. A cortiça é uma presença incontornável na cultura e economia de Portugal, e o montado de sobreiro é uma paisagem única e familiar para quem cresceu neste canto da Europa. A ideia de encontrar tal paisagem no lado oposto do planeta despertou uma estranha curiosidade. Mas estava longe de imaginar que me iria deparar com um intenso sentimento de regresso a casa, enquanto o meu lado consciente debatia-se para me relembrar de que estava num ambiente completamente novo, a milhares de quilómetros de casa. Até mesmo a forma precisa como a cortiça estava cortada, reflectia traços das minhas tradições e cultura. E, no entanto, tudo naquele lugar era completamente novo para mim.

Reflectindo sobre esta experiência, revejo estas dialécticas (e muitas outras) em todos os aspectos da vida. A vida exige tanto esforço para acompanhar o seu ritmo, como para abrandar e experienciar a familiaridade que emerge do cotidiano. A novidade e a mudança só podem ser verdadeiramente percebidas em contraste com o familiar. Até que ponto somos capazes de perceber mudanças no nosso trabalho diário? Na nossa família e amigos? Em nós próprios?

Com demasiada frequência, vemos investigações de ocorrências que culminam em conclusões como a falta ou falha de “situational awareness“. No entanto, raramente estas noções demasiado vagas são devidamente exploradas ou explicadas. O que nos é familiar esconde com frequência as potenciais surpresas. A percepção de risco resulta antes de mais de uma melhor compreensão daquilo que nos transmite familiaridade e confiança. O que nos deixa confiantes face aos riscos (profissionais ou outros) não é mais do que a familiaridade que advém da experiência. O que nos surpreende ou nos torna mais cautelosos, é o que sobressai no meio da familiaridade.

You might also enjoy